A mulher no século XX
Ruth Cardoso
Período de inúmeras e velozes transformações, o século 20 também será lembrado como um marco na mudança do papel das mulheres na sociedade. Ele registra de forma inequívoca a passagem de uma condição quase que exclusivamente caracterizada por termos como reclusão e exclusão, resultantes de um vínculo extremo com a vida privada, para uma presença mais abrangente e diversificada das mulheres
em vários processos sociais - quer produtivos, quer públicos.
E não é insignificante o alcance dessa guinada. Ela desencadeou, por exemplo, o surgimento de novas possibilidades de aproveitamento da força de trabalho de mais da metade da população do planeta, até então restrita ao universo doméstico.
Acrescente-se que o impacto na sociedade moderna desse novo leque de funções assumido pelas mulheres reconfigurou antigas estruturas e ainda está longe de se esgotar.
A conquista de inúmeros direitos, ampliando os conceitos de participação e cidadania, é outro ponto importante a ser realçado. A vitória do acesso ao voto, nesse ponto, é emblemática. Foi também no século 20 que, por absurdo que pareça às cidadãs deste fim de milênio, foi "descoberta" a questão da saúde da mulher, evidentemente associada a um contexto de avanços na medicina em geral.
Muitos movimentos de mulheres também impuseram a politização de temas relacionados à vida privada, anteriormente considerados irrelevantes dentro da pauta de debates sociais. Como conseqüência dessa imposição, algumas discussões assumiram um tom mais humano e próximo do dia-a-dia das pessoas. Em alguns casos, destaque-se que a presença de mulheres em outras formas de mobilização social alterou a maneira da sociedade em geral de encarar a relação com os governos locais.
Foram, portanto, relevantes as mudanças sofridas e provocadas pelas mulheres ao longo do século 20, cuja escala passou a ganhar amplitude a partir da atividade econômica exercida nos anos da Segunda Guerra Mundial. Mas, apesar dos avanços e transformações, ainda é preciso avaliar esse saldo com parcimônia.
Quando não é regra, a discriminação ainda é um forte fator de exclusão. E não são apenas os salários, normalmente mais baixos do que os dos homens, que pesam nesse balanço. Também há a violência. Ela vigora em grande parte do mundo como forma de infligir às mulheres um comportamento alienado e submisso.
As agressões em suas diversas facetas podem estar explícitas ou camufladas em "eufemismos" de comportamento. Podem ocorrer de forma episódica ou como uma espécie de norma coletiva. E, em todos os casos, ainda configuram como uma das preocupações mais emergentes para o conjunto das mulheres.
Não deixam de ser tacanhos e tímidos também os limites ainda delimitados para a participação feminina na vida pública. Não raro, em uma série de países, a atuação das mulheres na política ainda é vista como uma quase extravagância.
Além de levar à consolidação dos avanços esboçados e realizados no século 20, essa nova visão e conceito estariam fincados sob um modelo ligado a um mundo mais democrático e igualitário, onde o trabalho, algo extremamente importante e do qual a sociedade depende, seria visto também como um complemento da vida individual.
Ruth Corrêa Leite Cardoso é presidente do Conselho da Comunidade Solidária.